Hibria: A Entrevista Definitiva
- domingo, abril 29, 2007, 18:30
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O RockBox publica orgulhosamente e com exclusividade a entrevista com a banda Hibria, concedida à revista norte-americana SnakePit, no ano passado.
Em 34 questões, os músicos contam detalhes de toda a carreira da banda.
1.Sabe-se que a banda foi formada em 1994. Vocês podem nos contar a história de como a banda se manteve junta e quanto tempo levou para encontrar as pessoas para completar o lineup? Todos os membros vieram de outras bandas? Vocês colocaram anúncios para conseguir membros para a banda?
Abel: O núcleo básico da Hibria nasceu em 1994, quando o Marco e eu começamos a compor algumas músicas juntos. Então o Marco chamou o seu colega de escola, Sávio, que tinha sua própria banda na época. Na verdade o convite foi feito a todos os membros da banda do Sávio, exceto o baixista…Então nós iniciamos uma banda chamada Malthusian. Mais tarde o vocalista foi substituído, bem como o guitarrista. O Diego era colega de escola do Sávio, e fez um teste, no qual foi reprovado. Depois de alguns meses, o guitarrista que ocupava o posto deixou a banda e nós resolvemos dar uma chance ao Diego. Quando o vocalista saiu, o nome do Iuri nos veio à mente. Poucos meses antes tínhamos feito um show com a banda dele (na época) e ele nos chamou a atenção pelos vocais e pela performance de palco. Então ele entrou para a banda e em 1997, nomeamos a banda de HIBRIA e lançamos nossa primeira demo.
Uma coisa curiosa é que a demo foi gravada e até mesmo executada em público na nossa cidade, com o vocalista anterior. Quando ele saiu, antes do lançamento da demo, a voz foi substituída pela do Iuri e então o Metal Heart foi lançado oficialmente.
2.Quais foram suas influências? Todos os membros compartilhavam um meio comum? Ou elas eram de alguma forma diferentes? Como isso moldou a banda, a respeito de suas primeiras composições?
Iuri: O fato de nós dividirmos o mesmo meio musical, como você disse, facilitou para todos nós trabalharmos juntos. Nossas influências são basicamente Iron Maiden, Metallica, Megadeth, Helloween, Malmsteen, Racer X, Manowar, Black Sabbath, Judas Priest, Dream Theater.
Hoje em dia estamos ouvindo Soilwork, Children of Bodom, Arch Enemy, Synergy, Rage,Angra, Blind Guardian, Dio, Primal Fear, Grave Digger, Metallium.
Abel: As influências comuns foram as principais razões de nos unirmos e nos ajudou a descobrir que tipo de sentimentos gostaríamos de passar em nossas músicas.
3.De onde veio esse nome um tanto quanto estranho, mas altamente único e quem deu a idéia?
Iuri: Um dia nós tivemos um encontro para decidir o nome da banda, então nós começamos a pôr algumas idéias na mesa para ver qual seria melhor. Muitas possibilidades vieram, mas da lista do Marco veio aquele que começou muitas discussões… HIBRIA. Depois de discutirmos o uso do nome, nós decidimos pegar este e dar um significado de força, poder e respeito às individualidades…
4.Qual era a visão original da banda? Vocês tinham bandas específicas em mente para tentar soar como tais, ou desenvolveram sua própria sonoridade conforme o tempo?
Abel: Eu acho que nossas influências foram um caminho a seguir, mas durante as composições nós procuramos misturar elementos diferentes, balanceando nossas diferentes influências e as idéias de cada membro, sabe…
Iuri: A coisa mais importante é criar uma música que conduza nós e o público a bater cabeça. Nós tentamos imaginar isso, quando vamos para o estúdio e batemos cabeça, nós sabemos que a música está no caminho certo.
5.Então, a Hibria começou oficialmente sua discografia com a demo “Metal Heart” em 1997. Expliquem para os leitores da Snakepit o que esse título significa para vocês, sobre como isso se relaciona com a maneira que vocês sentem a música e o metal em geral.
Iuri: Nós escolhemos Metal Heart como título, primeiro de tudo, porque a mídia estava falando que o metal tinha morrido. Segundo porque nós usamos esse título para dizer que o que a mídia estava dizendo era besteira e na verdade o Heavy Metal estaria para sempre em nossos corações.
E por ultimo, nós gostaríamos de mostrar para todo mundo que nós éramos uma banda de Heavy Metal, mesmo que nós estivéssemos no meio de um bombardeio contra esse estilo. Nós quisemos mostrar que a opinião da mídia não importava para nós.
6.Quantas cópias dessa demo cassete foram feitas? Elas foram distribuídas para muitas gravadoras diferentes naquele tempo? E se foram, como foi a reação?
Iuri: Eu não tenho certeza, mas acho que foram por volta de 450 demos e nossa intenção era propagar nossa música e o nosso nome para tentar ganhar contatos.
Na verdade não foi mandado para muitas gravadoras naquela época, porque nós sentimos que precisávamos de mais experiência antes de lançar um álbum que poderia ser digno para os fãs de metal comprarem.
Abel: A reação foi ótima…Só uma banda na nossa cidade havia lançado uma demo-tape em papel colorido, tocando Heavy Metal. Pela primeira vez havia uma banda de Heavy Metal na cidade com vocais agudos, duas guitarras, influenciada principalmente pelo Heavy Metal dos anos 80’s, lançando uma demo com letras impressas no encarte e fazendo o que muitos caras procuravam assistir ao vivo…Isso saiu quando o estilo estava sendo dado por morto e não havia shows…
7. Eu sei que “Stare at Yourself” foi utilizada no “Defying the Rules”. Alguma parte das três faixas daquela demo foi utilizada (“Throne of Glory”, “Masters of Fate” e “Draft”)?
Iuri: .Não. Após voltarmos da Europa nós começamos outro estilo de composição e “Stare At Yourself” foi a única música que nós pensamos que poderia se ajustar ao álbum. Então nós demos a ela uma “nova cara” mudando algumas partes. Eu não vou mentir para você, nós tentamos ressuscitar algumas dessas músicas algumas vezes porque nós crescemos com elas, mas nós não tivemos sucesso fazendo isso…
8.Após a demo ter circulado por um tempo, isso abriu algumas portas para vocês, em termos de ganharem shows e/ou interesse da gravadora? Quanto positivo foi o crescimento dos fãs?
Iuri: Nós ganhamos muitos amigos leais que seguem a banda até os dias de hoje… Na verdade nós ganhamos alguns contatos para shows e essa era a nossa intenção. Naquele tempo poderia ser difícil conseguir o interesse de um selo, mesmo “Metal Heart” tendo uma ótima produção com um encarte muito legal e qualidade sonora. Eu acho que esse material foi muito valioso para os fãs de metal, porque nós fizemos uma coisa digna de se ter, eu quero dizer, nós pensamos como seria a satisfação de comprar uma fita de uma banda local, ler as letras e poder cantar as músicas nos shows, olhar as fotos e ler um texto inspirado nos valores do metal. Esse era nosso objetivo.
9.Qualquer um que se considere um headbanger de verdade sabe que o Brasil tem sido um terreno fértil para bandas de metal nos últimos anos.
O que vocês diriam que faz a Hibria sobressair nessa cena lotada? Quão bem vocês se dão com as outras bandas do seu gênero, e vocês excursionam pelo país com algumas delas?
Iuri: Eu acho que esse conceito de tocar heavy metal, misturando o clássico melódico dos anos 80, a velocidade dos anos 90, e a técnica dos anos 2000 são a razão pela qual a Hibria tem ganhado seu espaço nas prateleiras e HD’s dos fãs de metal.
Marco: Nós temos contato com muitas bandas diferentes seguindo o mesmo estilo de metal, e temos dividido palcos com bandas de Death e Thrash também. Porém, nós não tivemos a oportunidade de excursionar pelo país com eles ainda.
10. Como é a cena Metal ai? O público é extremamente fiel às bandas, ou eles são às vezes imprevisíveis como aqui nos Estados Unidos?
Marco: Eu acredito que a cena Metal ganhe fãs todos os anos, mas perde parte deles também… Tem sido assim por anos… Atualmente, eu tenho a sensação que cada vez mais o público jovem está curtindo Heavy Metal e outros estilos como New Metal ou Punk Rock, tudo ao mesmo tempo… Eles seguem a tendência, mas começam a gostar de boas bandas de metal e eles curtem as duas por certo período de tempo. Depois de um tempo, eles tomam a decisão final, ou eles seguem a cena metal de perto ou a próxima tendência Pop.
11.E sei que vocês tocaram fora do Brasil algumas vezes, incluindo a Bélgica e a Alemanha. Como vocês comparariam a atmosfera lá com a de quando estão tocando no Brasil?
Iuri: A atmosfera é completamente diferente, mas ambas são ótimas. Na Alemanha por exemplo, os shows são lotados e lá algumas pessoas ficam batendo cabeça e outras curtindo o show mais concentradas, analisando e curtindo ao mesmo tempo. No Brasil, devido aos problemas financeiros, o pessoal tem que escolher o melhor show para ir, então eles não vão a todos.
Mas todos os que vão ao show são caras malucos, batendo cabeça e curtindo como se fosse o último show de suas vidas!
12.Eu sei que vocês saíram em turnê de divulgação da sua segunda demo, “Against the Faceless” (um título muito legal, diga-se de passagem!)…Pelo que entendo, a turnê estava planejada para 4 shows, mas acabou tendo quase 30 (!!). Como uma banda sem gravadora, naquela época, fez para viajar por metade da Europa e ainda sobreviver? Vocês devem ter algumas histórias interessantes sobre isso!
Iuri: Nós podíamos agendar só quatro shows porque a maioria das pessoas na Europa na verdade não acreditavam que nós iríamos aparecer, eu acho!!! No ano antes de irmos para a Europa, fomos viver em um país desenvolvido, chegando com alguns dólares nos bolsos, mas com bons contatos… Nós trabalhamos em restaurantes e reformas, tudo para que fosse possível arrecadar dinheiro para permanecer na Europa por um mês, se tudo desse errado… Bem, com essas economias nós fomos para a Europa e começamos com os shows… Depois de cada concerto, muita gente começou a falar sobre eles para seus amigos, para outras bandas, e escreverem reviews na internet… Nós perguntávamos para algumas pessoas após os shows quem tinha os contatos e conselhos para a gente e muitos organizadores de shows nos convidavam para tocar de novo, algumas semanas depois… Muitas bandas com as quais nós tínhamos tocado nos convidavam para tocar de novo ou nos apresentavam para os organizadores, e no fim nós tocamos todos os finais de semana, durante os cinco meses que estivemos lá. Claro que temos muitas histórias interessantes… Uma delas aconteceu em nosso primeiro show, no primeiro acorde da música a força elétrica caiu e nós ficamos no escuro total. Após meia hora nós recomeçamos.
13.Qual foi a reação nesses países e o que significou para vocês poderem tocar lá no começo da carreira da banda? Isso deve ter sido muito inspirador!
Iuri: Claro que foi. Não tem como dizer o quanto foi ótimo irmos para o exterior e sentirmos as reações do público com uma banda nova e desconhecida. Na verdade nós tínhamos planejado a viagem 2 anos antes e nós tocávamos juntos desde 1997, e a amizade tornou as coisas mais fáceis.
Marco: Eu acho que nós tivemos o momento de nossas vidas. Tudo que nós tínhamos era nossos instrumentos musicais e nossas mochilas com um destino certo, mas querendo ir em qualquer lugar que tivesse um palco, alguns PA´s e fãs de metal. Essa experiência contribuiu para uma influência notável em nossa música com os valores que nós aprendemos na estrada, com as pessoas e as bandas que nós encontramos.
14.Como foram as reações para a demo de “Against the Faceless”? E vocês ganharam um pouco mais de exposição dessa vez por causa dela? Foi uma demo financiada por vocês? Houve algum interesse de outros países, ou foi principalmente no Brasil?
Iuri: Sim, a demo “Agaist the Faceless” foi financiada por nós e na realidade nós gravamos e fomos para a Europa algumas semanas depois, então, eu acho que a exposição foi ótima porque nós fizemos muitos shows na Europa baseados nessa demo e pela primeira vez nós estávamos tentando conseguir um acordo com gravadora. Essa demo foi lançada também no Brasil quando a “Against the Faceless Demo Tour” acabou.
Marco: Nós não promovemos bem no Brasil porque quando nós retornamos da Europa , sentimos que estávamos em outra direção musical e não faria sentido continuar promovendo.
15.Por que vocês decidiram não reutilizar a música “The Saga Will Begin”, dessa demo, se as outras duas faixas, (“High Speed Breakout”, “Faceless in Charge”) foram usadas no cd? Vocês acham que um dia todas as faixas demo não lançadas serão usadas? Talvez como faixa bônus de algum EP?
Iuri: Nós quebramos nossas cabeças muitas vezes para fazer a música soar melhor no álbum, mas não conseguimos… High Speed teve uma versão totalmente diferente, apenas a parte instrumental permaneceu… The Faceless foi rearranjada com partes mais agressivas. Nós pensamos sobre esta questão algumas vezes, porque algumas músicas gravadas em demos foram muito boas no tempo que foram distribuídas, mas no presente nós temos que trabalhar coisas novas e deixar o material antigo para as pessoas que compraram naquela época…
16.Então veio o single “Steel Lord On Wheels”, o qual foi disponibilizado apenas para os fãs de Porto Alegre. O que estava por trás da decisão de fazer desta maneira? Foi como um “presente” para os leais fãs da cidade natal, ou…?
Iuri: Na verdade após “Against the Faceless”, que não teve uma grande promoção em Porto Alegre, nós decidimos mostrar para os fãs de nossa cidade um pouco de nossa nova direção musical. Muitos amigos perguntaram para nós sobre as composições nas ruas e nós pensamos que era a hora certa para expandir isso.
17.Quando a banda de fato fechou com a Spiritual Beast Records para o lançamento de “Defying The Rules”? Vocês ficaram satisfeitos com o contrato? Tiveram outros selos que mostraram interesse na Hibria na época?
Marco: A Spiritual Beast lançou pela primeira vez o DTR no mundo, mas eles são licenciados da Remedy. Antes de fechar acordo com a Remedy, nós estávamos para fechar com outra gravadora alemã…
18.Então, agora que o DTR é licenciado pela Remedy? O álbum está tendo distribuição mundial? Para mais quantos álbuns é o contrato com a Remedy Records?
Iuri: Sim, o DTR foi lançado em vários países, como Japão, Taiwan, Coréia do Sul, Europa, Brasil e EUA.
19.O “Defying The Rules” foi produzido pela banda, correto? Então o Piet Sielck (Iron Savior, Savage Circus) foi quem mixou e masterizou. O que vocês acharam do resultado, e porque vocês escolheram ele para o trabalho?
Iuri: Nós escolhemos o Piet porque ele tem um estilo cru de trabalhar. Nós realmente ficamos satisfeitos porque ele teve mente aberta para nossas opiniões. Todas as músicas foram mostradas para nós antes da versão final e ele seguiu muitos de nossos pedidos.
Marco: Eu contribuí na definição do conceito da música e mantive as idéias do Abel, Diego e Iuri nesse conceito nas sessões de composições, mas as músicas apenas foram terminadas quando todos nós estávamos satisfeitos com elas. No estúdio de gravação o Diego fez a maior parte da produção. Depois ele trabalhou com Piet na mixagem, avaliando os resultados e ficando certo de que a mixagem iria soar exatamente como imaginávamos.
20.Eu citei que até muito pouco tempo atrás o line up da banda nunca havia mudado. Como vocês fizeram para manter o mesmo line up durante todo esse tempo? Foram suas influências em comum e objetivos fortes o suficiente para manter a banda unida todo esse tempo?
Marco: Certamente ajudaram muito, mas o mais importante é o fato que todos nós somos igualmente responsáveis pelas realizações e erros da banda. Nós não estamos seguindo um líder ou um gênio criativo. Nós temos criado um ambiente onde nós deixamos nossos egos do lado de fora. Quando estamos juntos, nós somos um, Hibria, e os resultados são igualmente divididos.
21.Então, em novembro de 2005, decidiu-se que o baterista original, Savio Sordi deixasse a banda. Quais foram as razões dessa saída? Vocês sentem que isso foi a única coisa que a banda poderia fazer nesse ponto da carreira?
Marco: Nosso relacionamento não estava indo bem, então não tínhamos prazer em continuar tocando juntos por muitas horas.
22.O debut mostra um diferente, alto nível de musicalidade que a maioria das bandas não apresentam nem com muitos anos de experiência. Seu baixo é tão energético e excitante de ouvir comparado a muitos baixistas de hoje em dia. Você pratica bastante, e quando você pratica, onde ou em quem você procura inspiração?
Marco: Minha inspiração vem de baixistas como Steve Harris, Cliff Burton e Geezer Butler… Eu também gosto de ouvir músicos de estúdio como Stuart Ham ou qualquer outro que toque com guitarristas solo… Eu não pratico muito, mas quando o faço, faço de verdade. Eu tento me divertir e obter o que a música pede para um arranjo de baixo.
23.Você usa palheta, ou os dedos apenas? Me fale sobre suas grandes influências e como os anos dourados do metal inspiraram você para o que você faz hoje…
Marco: Eu toco apenas com os dedos, assim como os baixistas que me influenciaram… os baixistas dos anos dourados criaram o que o baixo de metal é. Eu simplesmente peguei o conceito de manter o baixo agressivo e preencho as músicas quando a guitarra ou a música pedem um solo de baixo… Eu adicionei um pouco de velocidade, e os caras me ajudam a encontrar onde estão os melhores pontos nas músicas para me unir a eles, ou botar algum solo.
24.Os guitarristas Diego Kasper e Abel Camargo são dois dos melhores guitarristas solo que eu já ouvi. Parece que o material que apresentam é tão intenso e insano que eu não acredito que eles poderiam tocar isso ao vivo. Sua química é rara. Desde Becker/Friedman e Gilbert/Boullet não ouvia uma dupla de guitarras como essa.
Você sente que eles têm algo especial juntos, quando você toca ao vivo?
Marco: Eu diria que não é apenas quando eles estão tocando ao vivo, mas também quando estão compondo… Eles contribuem de maneira entusiástica para deixar as idéias, os solos e arranjos do outro melhores. Tudo faz parte desse ambiente de destruição de egos que nós criamos para a Hibria… Sugestões ou melhorias não são encaradas como uma intromissão ou comentário destrutivo, é tudo para deixar as músicas melhores e ter mais prazer trabalhando juntos…
25. É reconhecido que a maioria das músicas do DTR oferecem ao ouvinte muito mais do que velho estilo de composição “verso/refrão/verso/refrão/”, o qual tende a ficar chato rapidamente. As quebras e mudanças de andamento são o que eu sinto que fazem a Hibria tão única! É intencional compor dessa maneira, ou isso acontece naturalmente? Vocês estão cansados desse estilo de composição “verso/refrão/verso/refrão/”?
Iuri: Na verdade nós tentamos imaginar o sentimento de tocar essas músicas ao vivo. Toda a estrutura é decidida baseada nisso. Se nós não estamos batendo cabeça o bastante para machucar nossos pescoços, nós tentamos de novo até alcançarmos esse ponto. Nada contra o “verso/refrão/verso” porque nós fazemos isso às vezes também e têm muitas bandas que nós gostamos que usam essa fórmula e fazem um bom trabalho.
Marco: Eu não penso que seja algo intencional… Eu quero dizer, quando nós sentimos que essas repetições estão boas, ou que irá fazer experiência de audição mais intensa, nós usamos isso. Se não, nós tentamos diferentes caminhos, especialmente para desafiar a nós mesmos como músicos.
As vezes nós tentamos juntar idéias que nós gostamos, mas elas são totalmente diferentes uma das outras e o resultado é que temos que criar muitas outras coisas no meio destas partes apenas para tê-las na mesma música…
Mas eu acredito que estas sejam as partes mais prazerosas de nosso processo de composição, é como por um quebra-cabeças junto sem saber que imagem ele deveria ter. Primeiramente nós pensamos que os fãs de metal não iriam gostar, mas após o lançamento nós soubemos que foi exatamente do que a maioria das pessoas gostou no álbum.
26. Eu soube que você escreveu quase todas as letras do DTR. Isso porque o resto da banda se sente mais confortável dessa forma, ou porque você preferiria escrever todas as letras para obter um ponto exato através da história das músicas?
Marco: Eu acho que as duas razões são corretas…Eles deixaram isso para mim desde que nós começamos a banda, todos, exceto o Sávio e eventualmente o Diego, tentaram vir com alguma coisa…Talvez eu tenha essa incumbência, porque eles sabiam que eu tinha uma história e que eu iria incluir as idéias que eles acreditam ser importantes para serem expressas pela banda…
Iuri: Quando nós decidimos escrever a saga do Master Of Fate, todos deram idéias para criar os componentes e depois colorar no papel as idéias para cada música. O Marco já tinha boa parte da história na cabeça, e com nossos “ingredientes” ele escreveu quase todas as letras.
27. A estória do “DTR” é muito legal e bastante velha guarda. Quem apareceu com essa idéia? A estória tem um significado específico para vocês? Para mim parece o seguinte: “Nós devemos nos levantar contra o poder dominador e permanecer verdadeiros para nós mesmos aconteça o que acontecer!”, seria correto afirmar isto?
Iuri: Basicamente, sim!! O sentido da estória é “lute junto com seus companheiros pelas coisas que vocês querem, nunca desistam e não sigam o caminho traçado pelos outros”. E a união/parceria contada na estória e nas músicas realmente aparece nos shows, onde o público tem a oportunidade de liberar toda a sua ira interior, energia e gritar mais alto. Quando nós percebemos isso nos shows, sabemos que a nossa mensagem foi entendida.
Marco: Na realidade a estória tem três camadas/idéias. A primeira diz respeito à estória do Steel Lord, um corredor mercenário a serviço do império, que, uma vez trapaceado, decide se juntar aos rebeldes na sua corrida para chegar ao lugar que o Império não tinha poder, tornando-se senhor do seu destino. A segunda camada/idéia é relacionada à preparação mental e espiritual que alguém passa para desistir das velhas idéias até conseguir abraçar as novas, especialmente quando essas idéias são conflitantes. O terceiro plano/idéia é relacionado àquilo que você disse, e o que nós vivemos como banda até então foi a inspiração para os outras duas camadas/idéias. Nós temos lutado para encontrar nosso espaço e fazer do HIBRIA uma banda reconhecida, assim como ganhar a vida a partir disto. Mas, nós nunca tivemos dinheiro, ou uma gravadora de grande porte, empresários ou qualquer outro suporte desse tipo… Nós tivemos que fazer por nós mesmos. Enquanto isso nós vemos muitas bandas de Metal comprando espaço no mundo e promovendo a si mesmas que nem o McDonald’s faz com o Big Mac…Infelizmente, é isso o que o Metal está se tornando… Nós percebemos que para encontrar nosso espaço no mundo nós teríamos que destruir nossos egos, nos tornar apenas um e fazer alguma coisa, que, mesmo sem nenhuma promoção, mereceria a atenção dos fãs de Metal.
28. Os desenhos conectam-se à estória. Foi uma decisão fácil trabalhar com desenhos de velha guarda aliados a um estilo mais moderno com o auxílio de computadores? Quem desenvolveu a temática dos desenhos?
Iuri: Nós achamos uma idéia legal misturar os estilos, dessa forma pudemos atingir as duas escolas. Nós estávamos procurando alguém para reproduzir a idéia da estória do “DTR” e entramos em contato com o Daniel HDR que desenhou e a Sula que trabalhou com a colorização dos desenhos. Nós acreditamos que eles fizeram um grande trabalho juntos. Os desenhos foram desenvolvidos pela gente e o Daniel conseguiu o que queríamos e também compartilhou suas idéias.
Marco: Era claro para a gente que queríamos alguma coisa velha guarda, com desenhos feitos à mão baseados em estórias em quadrinhos. Os temas são baseados em algumas partes chave da estória. Na capa é o Steel Lord sendo caçado por um de seus antigos amigos Mercenários. A parte de trás é baseda na Hog Race, a competição que o Império criou para deixar as pessoas alienadas da realidade e do seu governo corrupto. As Hog Races são competições disputadas por Mercenários bem equipados contra pessoas fora-da-lei condenadas à pena de morte. A Hog Race era a chance deles prolongarem sua caminhada no corredor da morte. A multidão deleitava-se quando os condenados eram mortos nas Hog Races, mas eles nunca pensavam se o julgamento a que eles eram submetidos era justo nem mesmo se importavam em saber que crimes eles tinha cometido. Na realidade a maioria deles eram rebeldes contra o Império. Na parte de trás do encarte você tem o resultado da caçada da capa, quando Steel Lord juntou-se aos outros rebeldes e derrotou o mercenário que estava lhe perseguindo. Ainda, no topo do prédio você pode ver Mr. Faceless, o homem por trás dos governos e da corrupção assistindo a tudo.
29.É muito incomum ouvir um vocalista brasileiro que não deixa trasnparecer seu sotaque enquanto está cantando. O Iuri tem um bom domínio da língua inglesa? E onde vocês encontraram um vocalista relativamente desconhecido como ele? Ele tem um talento extraordinário. Ele esteve em alguma outra banda antes de entrar para a Hibria?
Abel: Nós encontramos o Iuri numa cidade vizinha quando sua banda (Manuscript, de Porto Alegre) iria abrir o show para a Hibria. Nós assistimos sua performance, semanas mais tarde, após nosso primeiro vocalista deixar a banda, nós o chamamos para um ensaio (ou teste). Iuri tem um bom conhecimento de inglês, mas não é perfeito. Após o Manuscript ele também entrou na Malefactor (de Porto Alegre também).
Marco: O Iuri fala inglês bem, mas eu acredito que sua pronúncia venha de quando ele costumava cantar músicas covers, então a maioria do seu aprendizado vem de cantar as canções que ele iria fazer covers e foi assim que ele aprendeu a pronúncia correta das palavras.
30.Quais são os planos imediatos para a Hibria, fazer turnês, ou vocês estão concentrando mais em escrever materiais para um novo lançamento? Eu sei que eu adoraria ver vocês nos Eua, alguma chance se isso acontecer – talvez por alguns festivais…
Iuri: Hoje em dia nós estamos mais focados em nosso novo álbum que nós pretendemos lançar no fim do ano. mas também é verdade que nós sempre estamos procurando por turnês futuras, porque isso é o que a gente mais gosta de fazer, mas nós não temos planos para agora. Ir fazer alguns shows nos Eua seria ótimo já que o “DTR” tem tido uma ótima resposta por aí.
31.Para quando podemos esperar um álbum novo da Hibria? Vocês têm algum plano para um DVD ao vivo ou algo assim?
Iuri: Nós estamos trabalhando duro no novo álbum e esperamos terminar as musicas em breve… Quanto ao DVD, não temos planos.
32.O que os caras da Hibria escutam atualmente?
É mais metal clássico?
Iuri: É sempre bom ouvir os clássicos, mas atualmente estamos ouvindo Soilwork, Children of Bodom, Arch Enemy, Synergy, In Flames, Rage, Blind Guardian, Dio, Primal Fear, Racer X, Grave Digger, Metallium, Impelliteri, entre outros.
33. O que vocês sentem que está errado na cena do metal atualmente? Vocês diriam que é o efeito ‘mainstream’ empurrando lixo como Pop e New Metal goela abaixo nas pessoas? Quero dizer, há menos cobertura para o Metal de verdade do que para qualquer outro estilo de música eu diria…
Marco: Definitivamente a mídia continuará dizendo o que as pessoas devem ouvir, entretanto eu vejo que a internet está causando uma grande revolução… As pessoas agora podem verificar por si mesmas, muito facilmente, bandas que amigos recomendam ou bandas que elas ouviram falar, a internet permite às pessoas curiosas, em questão de minutos, saber toda a história, as principais bandas da cena, permitindo a elas decidir por elas mesmas se gostam ou não.
34.Se vocês tivessem que escolher cinco álbuns clássicos de metal para levar com vocês para uma viagem ao espaço por alguns anos, qual deles vocês escolheriam? (haha – vocês sabiam que eu ia perguntar isso, não sabiam?).
Iuri: Eu estava certo sobre isso e fui tão a fundo nisso que vim preparado com mais de 5 álbuns: Megadeth – Rust in Peace, Judas Priest – Painkiller, Black Sabbath – Heaven and Hell, Blind Guardian – Imaginations from the other side, Metallica – Master of Puppets, Crimson Glory – Transcendence, Dream Theater – Awake, Iron Maiden – The Number of the Beast, Helloween – Keeper of the Seven Keys – Part II.
Marco: Na verdade nós fizemos essa eleição quando nós estávamos nos preparando para uma viagem (não em uma nave espacial) e nós já estamos prontos quando a questão (ou alguma viagem) aparece para nós.

Tradução: Bárbara Sudbrack, Murilo Bittencourt e Abel Camargo
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