Review: NOFX em POA
- sexta-feira, março 5, 2010, 0:55
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NOFX – 03 de Março de 2010 – Pepsi On Stage
“Cara, não vou entrar em roda, vou até ficar meio pra trás, tô velho pra isso” foi o que eu disse para um amigo minutos antes do NOFX entrar no palco. Afinal, fazia tempo que não ouvia a banda e uns anos que não curtia esse mundo do punk rock. Mas foi só arranhar o comecinho de Linoleum e entrar a bateria alucinada do Erik Sandin para me encontrar no meio de uma roda enorme, gritando e pulando, de volta ao espírito dos meus 15 anos.
No ínicio, a dúvida: a banda de abertura já havia tocado há meia-hora e o lugar ainda parecia vazio. Mas assim que a banda californiana entrou no palco, o Pepsi On Stage pareceu lotado.
Chegaram, fanfarrões como sempre. Bandeira do orgulho gay sobre uma mesa de som. El Hefe com camiseta do Iron Maiden. Melvin e seus dreads, bandeira do Brasil com uma figura e a inscrição “Desordem e Anarquia”, que teria me feito babar aos 13 anos. Foram muito simpáticos em suas piadas iniciais e o vocalista estava visivelmente bêbado – bom sinal. Depois das duas primeiras músicas (Linoleum e Seeing Double at The Triple Rock) comentaram que dessa vez o público parecia mais legal que da outra, em 2006. Então tá.
Acontece que em 2006, se não me falha a memória, o show parecia muito maior. O espaço estava todo aberto (dessa vez a organização colocou cortinas no meio da pista) e muita gente aguardava desde cedo pelo show. Dessa vez o público não teve pressa. Minutos antes, a fila não era extensa. Também, não havia o clima de novidade que acompanhava a vinda do grupo ao Brasil em 2006. Eles tocaram no Brasil em 1996 e, desde então, juraram nunca mais vir. Em 2006, era uma surpresa. Nesta quarta-feira, foi a volta de um velho conhecido. E mesmo com os quase 4 anos de diferença de lá pra cá e a idade levemente avançada dos membros da banda, deu pra sentir a mesma energia no palco.
Depois de tocarem a clássica Murder the Government e fazerem algumas piadinhas, passaram por mais duas faixas sensacionais do disco Punk in Drublic – The Brews e Leave it Alone. El Hefe instigou a rivalidade São Paulo/Porto Alegre e entraram com a fraca Franco Un-American, do tempo em que Fat Mike só pensava em derrubar George W. Bush. Agora Bush já era e as músicas desse período parecem datadas – provando que discurso punk não pode ser pontual. Punk In Drublic e The Decline são clássicos por isso – fala sim, de política e de temas “sérios”, mas não aponta dedos. Fat Mike também chamou a Casa Branca de Casa Negra em algumas ocasiões do show, e explicou a piada: “é que agora temos um presidente negro”.
É muito legal quando uma banda conhecida e respeitada vem de longe e conversa com o público entre uma música e outra. Mas certamente o NOFX exagera no papo. Para alguns, isso representa a perda do ritmo do show – deu para ouvir uns “TOCA LOGO”, “FALA EM PORTUGUÊS” e “CALA A BOCA” do público impaciente. Para outros, é uma boa oportunidade de conhecer a banda e entrar mais em contato com seus ídolos. Para acalmar os ânimos e conciliar a galera, nada como músicas mais leves. Eat The Meek, Reeko, Radio (do Rancid) e algumas outras se fizeram muito bem presentes nesses momentos.
O público estava empolgado o tempo inteiro. Rolou roda até em Eat The Meek. Aliás, roda demais. Pessoal se pegando no soco, nem aí pra música. Homem batendo em mulher. Em 2006 aconteceu a mesma coisa. Isso é meio triste, na verdade: não importa a música, alguns caras só querem dar paulada. Tiram a camisa, preparam os punhos e lá vão eles. Na boa, vão pro ringue de luta livre. NOFX não é tão porrada pra isso.
Fat Mike anunciou que agora tocariam a melhor do show. E tocaram Mattersville, que é, de fato, uma boa música. Mas não é nada comparada a Dinosaurs Will Die (que foi sacrificada) e a interpretação deles foi bem fraquinha. Rolou um mini cover de Mudhoney: brincaram de tocar We Hate the Bloody Queen da banda grunge. Depois o Fat Mike, todo emo, disse que tocaria uma música triste e tocaram Orphan Year, melhor som do último disco, Coaster. Eu tinha esperanças que tocassem Best God in Show, outro bom som do Coaster.
“Nós adoramos Bad Religion, mas vocês não precisam ficar levantando essas camisetas”, disse Fat Mike a respeito dos punk rockers que só tinham camisetas do Bad Religion disponíveis.
Tocaram Cokie The Clown, música titulo do último EP. Nós entendemos, vocês têm que tocar essas músicas, claro, mas cadê Dinosaurs Will Die? Toquem alguma do Heavy Petting Zoo. Não? Stickin’ in my Eye, pelo menos? Não. Depois de tocarem Radio, do Rancid, vieram com Leaving Jesusland, Pharmacist’s Daughter (grande som) e um medley de I’m Telling Tim, Instant Crassic, Can’t Get the Stink Out e See Her Pee.
Então tocaram Quart in Session e mais três do Punk In Drublic: Perfect Government (“why did the cat get so fat?”), Fleas (“follow what I say not what I’ve done”) e fecharam o ato com Reeko, avisando que voltariam logo. *longa pausa*.
Achei que tocariam o PID inteiro – e isso tornaria o show inesquecível. NOFX tocando o seu melhor álbum – e provavelmente o melhor álbum de toda a cena punk californiana – na íntegra ao vivo para Porto Alegre. E sempre tem aquela esperança de tocarem The Decline na íntegra. Não rolou. Pelo menos tocaram 6 do disco.
Minutos depois, voltam e fazem um breve bis, tocando No Fun in Fundamentalism e as necessárias Bottles to The Ground, Bob, Don’t Call me White e Kill All the White Man. Em 2006, eles fizeram dois bis – sendo que em um deles o Melvin encheu o saco da galera com (o que pareceram) dez minutos de solo de acordeon.
Apesar das rodas punk violentas, da acústica sempre péssima do Pepsi On Stage (impossível ouvir o que eles falavam entre as músicas) e da falta de alguns clássicos no repertório, foi um grande show. E o mais legal foi ver que tinha muita gente nova. Muita gente nova cantando junto. Gente que não estaria em 2006. Gente que talvez nem estivesse nascida em 1996. Vi um guri com a mãe, cara, e isso sempre é lindo. Prova que a banda ainda tem força para juntar fãs. E por aqui, em Porto Alegre, cidade tão esquecida nos circuitos. Da cena punk, em breve vem Social Distortion e já temos boatos de um provável Anti-Flag. Ficamos na espera e na esperança. E, por mais que eu não ouça freneticamente como fazia com 15 anos, NOFX podia vir todo ano. Faz bem pra cidade.
SETLIST:
Linoleum
Seeing Double at the triple rock
Murder the government
The Brews
Leave it Alone
Franco Un-American
Eat the Meek
We Called It America
Mattersville
We Hate the Bloody Queen (Mudhoney)
Orphan Year
Cokie the Clown
Drugs Are Good
Radio (Rancid)
Leaving Jesusland
Pharmacist’s Daughter
I’m telling Tim
Instant Crassic
Can’t get stink out
See Her Pee
Quart in Session
Perfect Government
Fleas
Reeko
—-
There’s No Fun in Fundamentalism
Bob
Bottles To The Ground
Don’t Call me White
Kill All The White Man
I Wanna Be An Alcoholic
Por Gabriel Gama
Fotos: Thiago Tavares
Porto Alegre – 03/03/2010
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